quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Os alunos e os pais que temos


Há pouco, em conversa com uma antiga colega de profissão, ouvi, horrorizada, a descrição da relação de uma boa parte dos actuais alunos com os professores. Lembrei-me , então de um artigo que foi publicado por mim, em Setembro de 2006, no "Matosinhos Hoje". Pela sua actualidade, passo a trancrevê-lo.

Comecei a minha vida profissional há exactamente 38 anos. Dei os primeiros passos como professora no extinto Externato da Boa-Nova, ao fundo de Conde Alto Mearim. Ali começara também a minha vida de estudante muitos anos antes. Estava pois já habituada à disciplina da casa, se bem como aluna. E descobri que também havia uma disciplina como professora. Foram 4 anos que me valeram muito mais do que o estágio que fiz posteriormente. Tive que me desenrascar sozinha para leccionar 2 disciplinas (Português e História) a turmas dos antigos 1º ao 5º anos (actuais 2º e 3º ciclo). Isso significava que eu dava 10 matérias diferentes. Aprendi muito com essas minhas alunas de quem guardo gratas lembranças. Em casa de freiras indisciplina era um pecado mortal. Claro que havia alunas indisciplinadas (eu tinha sido uma delas no meu tempo de aluna). Mas tudo se resolvia com um raspanete e um castigo que nunca traumatizou ninguém (à excepção de algumas palmatoadas). Dali a minha vida profissional mudou-se para o oficial e andei por vários lados até estacionar definitivamente em Leça da Palmeira, onde estive 24 anos. Passaram-me pelas mãos centenas de alunos (quando estive na Biblioteca creio que era a escola inteira). No meio de toda essa massa tive de tudo: dos mais correctos aos indisciplinados, dos bem aos mal-educados. Mas não recordo ter tido ocasiões problemáticas com eles. Apeteceu-me, por vezes, dar um tabefe, mas limitei-me à repreensão. Na verdade tive mais problemas com os pais do que com os filhos. Frequentemente fui desautorizada pelos encarregados de educação, que vinham falar comigo, na frente dos seus educandos. Uma vez, juntamente com uma colega (lembras-te, Ermelinda?) ia sendo agredida por uma mãe que fora reclamar contra o envio de uma assistente social e de um polícia a sua casa porque a filha não aparecia na escola e ela nunca respondera aos chamados da directora de turma. Como esta não estava, ela foi recebida pela minha colega que era do Conselho Executivo. Perante o circo que aquela mãe armou armei-me em pacificadora e fui tentar por água na fervura. Recuso-me a registar aqui o que ouvimos e a forma como fomos tratadas, isto enquanto a filha, a causadora do sucesso, numa atitude para a qual ainda não consegui explicação, tentava acalmar a mãe. Teria medo que a mãe se excedesse e nos agredisse? Provavelmente porque a cena só acabou com a chamada da polícia.
Tenho-me lembrado muito deste episódio desde que vi parte de um documentário sobre a violência praticada contra os professores nas nossas escolas. Movimento que sabíamos existir lá fora, mas que nos últimos anos tem crescido entre nós. Voltando à história que vos contei, apesar de ser culpada, quem falhou ali não foi a aluna. Foi a mãe. Primeiro porque nunca se preocupara com o que se passava com a filha e depois ao insultar professores pelo grave pecado de terem cumprido o que estava determinado para casos semelhantes, ou seja, desautorizou-nos perante a aluna. Julgo que é nestas atitudes que está baseada uma boa parte desta violência. Vendo os pais tomarem posições destas porque não fazerem eles os mesmo? Nós não temos alunos mal-educados ou indisciplinados. Temos sim alunos deseducados e não disciplinados por encarregados de educação, na sua grande maioria os próprios pais, que utilizam na vida familiar e profissional formas de comportamento agressivas, vocabulário inadequado e são incapazes de estabelecer regras aos filhos porque eles próprios não as cumprem. Atenção que estou a referir-me aos casos problemáticos que têm surgido e não a generalizar. Felizmente ainda há pais normais ou excepcionais. Aliás se assim não fosse estaríamos numa selva.
Se eu fosse Ministra da Educação, antes de me preocupar com a avaliação dos pais sobre os professores (que teria alguma lógica se…) debruçava-me sobre o comportamento, formação e educação cívica dos encarregados de educação. Com pais iguais àquela mãe como poderão ser os filhos? Se não os educam em casa e julgam protegê-los desautorizando os professores e desvirtuando as regras das Escolas, que podemos esperar destes jovens?
Definitivamente, não são os filhos que são “rascas”. São mesmo alguns pais.

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