segunda-feira, 14 de abril de 2008

A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA

… Assim escreveu Fernando Pessoa, em 1931, estabelecendo a união entre os conceitos de pátria e língua. Esta frase veio-me à ideia hoje ao pensar num famigerado acordo ortográfico que foi estabelecido, em 1990, sem que os portugueses tivessem sido ouvidos, e que, por ainda não estar ratificado em Portugal, o novo Ministro da Cultura se prepara para aprovar e implantar. Segundo foi estabelecido, aquele documento pretende defender a “unidade essencial da língua portuguesa e o aumento de seu prestígio internacional pondo um ponto final na existência de duas normas ortográficas divergentes e ambas oficiais: uma no Brasil e outra nos restantes países de língua portuguesa”. Ou seja portugueses, brasileiros e africanos das ex-colónias, vão ter que escrever todos da mesma maneira.
Este espaço de 18 anos em que o dito cujo tem estado em banho-maria, alimentado em combustão lenta por algumas intervenções dispersas no tempo, é revelador da insegurança de quem o traçou. Se era bom e necessário, porque não o assinaram logo que terminado? Quantos governos por ele passaram sem que deles se lembrassem, se é que o viram? A única explicação que encontro para isso é o receio que os seus responsáveis têm da reacção à sua aplicação porque ele revela uma tremenda falta de respeito pela língua falada e escrita em Portugal, que sendo a original, a mãe, é justamente aquela que mais variações sofreu. Assim enquanto no Brasil se irão verificar apenas 0,5% de alterações, entre nós elas serão de 1,6%. Porque cedeu tanto Portugal? Há quem diga que foi a força das editoras brasileiras. Talvez… Graças a Deus que as cedências não foram feitas tomando como padrão a expressão geográfica de ambos os países. A ser assim nós teríamos desaparecido e teríamos de falar brasuca, qual personagem de telenovela. Num momento em que se toma a Espanha como exemplo de país em grande evolução deveríamos reparar quantas normas diferentes tem o castelhano. Só no Word do Windows instalado no meu computador (e nos de toda a gente) existem pelo menos 19 dicionários de castelhano, tantos quantos os países em que pela América central e do sul ele é falado. Vão lá ver. Se há normalização em Espanha não se nota.
A grande riqueza da língua portuguesa reside justamente na sua capacidade de absorção de termos de outras línguas. Foi assim que ela, nascida num berço de latim, cresceu com os termos germânicos, através dos bárbaros invasores, e orientais, pela instalação dos mouros no nosso território, povos que em nenhum momento apagaram a língua que encontraram mas, antes pelo contrário, a respeitaram adoptando-a e enriquecendo-a. Foi assim que ela chegou às nossas ex-colónias e ali assentou arraiais alimentando-se com mais termos dessas terras. Esses povos coloriram-na com os sotaques e temos locais e ela ganhou o calor e a cor daquelas gentes. Tornou-se mais rica e maleável. A diáspora portuguesa levou-a aos quatro cantos do mundo e hoje, depois do inglês e espanhol é a mais falada, tal como está. E está muito bem. Pô-la dominada por adaptações feitas por povos mais recentes é de certo modo diminuí-la tornando-a um idioma secundário.
Cá por mim, vou borrifar-me para o dito acordo. Não vou tirar o c ao de facto porque fato para mim é coisa de vestir. E língua é coisa que, ao contrário do vestuário, não tem moda. É intemporal e eterna enquanto houver alguém que a fale, seja de que maneira for. Os anos que levaram a pensar em assinar o referido acordo fazem-me pensar, e não devo estar errada, que a sua aplicação não será para o meu tempo. Os meus bisnetos que se cuidem, porque os netos também já devem passar impunes. Estes, creio, até lhe vão passar ao lado pois já inventaram um português paralelo: o da escrita dos sms e mensagens do Messenger que só eles entendem e que até tem uma certa lógica fonética.
Se me obrigassem agora a mudar a minha língua voltaria a ficar expatriada, porque a minha pátria é a língua portuguesa. Não aquela que os acordos determinam mas aquela com que cresci e me conta a história de um país que se fez sozinho e foi navegante e aventureiro.

(in Matosinhos Hoje - 15/4/2008)



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