sexta-feira, 13 de junho de 2008

A MINHA CASCATA


Cascata típica do Porto


Com o mês de Junho chegavam os Santos Populares. Na minha terra nunca ligámos muito ao S. António e o S. Pedro era festejado essencialmente pelos pescadores. O nosso Santo era o S. João. Havia uma emoção especial naquela festa. Logo nos primeiros dias do mês ia-se buscar a grande caixa de cartão onde se guardavam os bonecos e começava a discussão sobre o local em que se montaria a cascata nesse ano. O que eu acho mais piada, assim à distância, é que só havia dois locais para o fazer: Um, o favorito, era no canteiro redondo do quintal. O outro era junto da parede que separava o jardim do pátio onde estava o tanque. No primeiro domingo do mês, de manhã, saíamos todos, eu, o meu primo Zé e os empregados das lojas dos meus pais, em excursão até ao molhe sul onde recolhíamos as escórias necessárias para fazer os relevos da cascata. Da praia vinha a areia para desenhar o chão e os caminhos. À tarde, em nova saída, desta vez para os campos, recolhíamos o musgo e os ramos de carvalho.
A cascata era feita quase sempre depois de jantar. Os dias eram mais compridos e comia-se muito depressa para ficarmos com tempo livre. Os grandes arquitectos das cascatas foram primeiro o Gilberto e mais tarde o Chico. Colocavam-se em frente ao local e iam dando ordens. Primeiro fazia-se uma espécie de palco com madeira dos caixotes de sabão, que era forrada com papel pardo sarapintado previamente com pingos de tinta preta, castanha e verde, para imitar a terra e as rochas. Depois dispunham-se os pedaços de escória e o musgo e traçavam-se os caminhos com areia ou serrim. Na parte mais alta (do canteiro redondo) ou encostada ao muro pousava-se uma caixa de cartão, também forrada com o dito papel pintado e com musgo. Por cima fazia-se uma espécie de dossel com ramos de carvalhos por entre os quais se dissimulava uma lâmpada. Era a zona mais importante da cascata e onde se albergavam os três santos. Na semana antes do S. António era este santo que se punha ao meio. Até ao dia 24 o lugar era ocupado pelo S. João que, por sua vez, era substituído pelo S. Pedro até 29.
A disposição dos bonecos era também motivo de grandes discussões. Cada um de nós tinha as suas simpatias por determinadas figuras e queria pô-las próximas dos santos. Os pastores, as ovelhas e o polícia que prendia a leiteira que fazia chichi no leite eram os meus favoritos. Também me atraíam muito as casinhas de cartolina que o Chico fazia e pintava.
Em toda aquela festa havia três coisas que me tocavam especialmente. Uma era o momento em que, na noite de S. João, se acendiam os balões suspensos à volta da cascata. Durante algum tempo eram iluminados pelos tocos de velas que se prendiam lá dentro. Mais tarde o Chico inventou um processo ardiloso de lhes pôr lâmpadas. O que parece hoje tão fácil e que já se compra feito, naquela altura era uma verdadeira obra de engenharia. A segunda era o lançamento do fogo e dos balões, lá pela meia-noite. Os balões iam sendo feitos pelo Chico ao longo das semanas anteriores. No intervalo dos clientes, o papel de seda e a cola substituíam as fitas e os tecidos em cima do balcão da retrosaria da minha mãe. Mas a coisa que me dava mais prazer, era andar a pedir na rua “um tostãozinho para a cascata”que era, aberto o portão do jardim, podia ser vista pelos passantes. Eu, que nunca fui muito ligada a dinheiro, ficava fascinada pelas moedas de meio tostão e tostão que as pessoas me punham no prato de esmalte. É certo que não me afastava muito mas aquilo dava-me uma sensação de liberdade e de independência de que ainda hoje sinto saudades. O meu padrinho deslocava-se sempre do Porto a Matosinhos para ir ver a nossa cascata. Era a esmola mais grossa. Lembro-me que um ano me deu vinte e cinco tostões – o que dava então para 5 viagens ao Porto de eléctrico. Embora me dissessem que era muito dinheiro eu fiquei tristíssima porque achava pouco. Era só uma moedinha, coisa sem valia para quem pensava que o valor do dinheiro se media pelo número de moedas. Vendo o meu ar triste, alguém me disse que eu podia trocar a moeda e assim teria mais. Meu dito e meu feito: sem dizer nada a ninguém, fui à tabacaria mais próxima e pedi para trocar os referidos vinte e cinco tostões. Muito simpaticamente deram-me de volta duas moedas de 5 tostões, uma de 10, duas de 2 e uma de 1. Mas como me tinham dito que eu tinha 25 tostões e afinal só me tinham dado 6 moedas, abri um berreiro no balcão que só acabou quando me trocaram tudo por 50 moedas de meio tostão.

Do meu velho S. João conservo o sentimento de alegria que todos partilhávamos com a montagem da cascata e a saudade que sentíamos quando a desmontávamos. Os meus netos, enquanto pequenos, ainda tiveram direito a uma só deles.

2 Comentários:

Às 13 de junho de 2008 às 20:11 , Anonymous Anónimo disse...

Devia ser, de facto, uma época muito divertida, a julgar pela óptima descrição... agora, talvez uma passagem pelas lojas do trezentos e pode encontrar-se tudo o que é preciso... até para fazer cascatas e com muitas luzinhas!
Não há dúvida, os tempos mudaram, mas o encanto do que vivemos ninguém nos tira!
gaivota do sul

 
Às 19 de junho de 2008 às 23:42 , Anonymous Anónimo disse...

Ao meu avô,
fica aqui nesta página que não é minha e lhe seria alheia, a minha homenagem e a saudade das cascatas e da infância que tão bem soube oferecer-me.
Ele chamava-se António.

Paula

(Perdoem-me este 'abuso'.)

 

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