quarta-feira, 28 de maio de 2008

DIVAGAR NUMA ROTA QUEIROSIANA

MADRUGADA SOBRE O DOURO NO VERÃO DO ANO PASSADO

Como alguns sabem, nós temos uma casinha sobre o Douro, por alturas de Baião. Procurámo-la pela rota das palavras de Eça (eu continuo queirosiana empedernida) e encontrámo-la por acaso sobre a estação onde o escritor desembarcou do comboio para receber a herança de sua mulher a Quinta de Vila Nova, hoje sede da Fundação Eça de Queirós. Ele chamou-lhe Tormes, mas o seu verdadeiro nome é Santa cruz do Douro. Ninguém pode ficar insensível à descrição que ele fez do local em que desembarcou – a estação ferroviária:
“ (…) esperámos com alvoroço a pequenina estação de Tormes (…). Ela apareceu enfim, clara e simples à beira do rio, entre rochas, com seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombrando o pátio, e por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo”.
Actualmente a esta descrição só lhe faltam os girassóis. As figueiras lá estão, a casa é branca e a serra está na mesma, à excepção de umas raras construções. Um dia os homens que vieram muito depois resolveram aproveitar o rio para produzir electricidade. Construíram umas quantas barragens, o que equivale a umas quantas albufeiras. A água subiu e as rochas acima citadas desapareceram muito lá no fundo. E o rio viu diminuir os seus meandros porque ficou um lago e separou ainda mais os habitantes das duas margens. Aqui em Santa Cruz, no verão, ele atravessava-se a pé o que possibilitava às pessoas da margem norte ir à farmácia da margem sul, o que poupava 14 Kms, que é a distância a que fica a mais próxima, em Baião.
Paralelamente, isso trouxe outras vantagens: o rio tornou-se navegável. Toda a gente sabe que pode meter-se num barco no Porto e ir até à Régua ou Barca d’Alva ou, saindo da Régua ir até ao Porto. Aos sábados e domingos, de Abril a Outubro, o Douro parece uma auto-estrada tal é a quantidade de barcos de turismo e de recreio que o sobem e descem.
O que se passa relativamente à paisagem junto da estação, ainda há poucos anos era aplicável ao percurso que dali vai para a casa da Fundação. Nos últimos tempos a vontade extrema, para não dizer moda, que se pegou aos citadinos, fez aparecer uma razoável quantidade de construções que, graças a Deus, têm respeitado mais ou menos o ambiente rural. Por cima da minha casa, a cerca de 200m, levanta-se neste momento um complexo hoteleiro cujos donos, segundo ouvi na TV, aspiram a que seja um êxito enorme, talvez a partir do próximo ano. Os habitantes locais olham desconfiados para a construção e aproveitam para começar a pedir mais dinheiro pelos terrenos que, por plantar com a crise da agricultura, pensam vender aos prometidos visitantes estrangeiros. E imaginam, qual romanos no final do Império, que vão ser assaltados por uma horda de bárbaros que, encantados com o lugar, aqui se passarão a fixar. Eu estou sentada, à espera para ver. Quem tem dinheiro para pagar um hotel num local assim, onde nada lhes falta para terem tudo, certamente preferi-lo-á à obrigação de manter aqui uma casa com todas as obrigações de manutenção que ela exige. E por outro lado após as primeiras passeatas pelo sítio, os nossos turistas, bárbaros, visitantes ou o que lhe quiserem chamar, acabarão por pensar o mesmo que o nosso Eça escreveu à mulher em 1898:
“À excepção daqueles sítios onde como se disse, a serra se humaniza, todo o passeio se compõe de dois esforços, – o de uma descida em que há sempre o perigo de se ser despenhado, e uma subida, depois, em que se tem de parar, cada cinco minutos, a arquejar – ou vice-versa. Andar de gatas, agarrado às fragas, é frequente nestes passeio de prazer”.
Mas talvez as coisas não corram mal e seja eu que estou a ser pessimista porque aqui “ em breve os nossos males se esquecem ante a incomparável beleza daquela serra bendita!””

Gaivota no Douro

1 Comentários:

Às 28 de maio de 2008 às 13:41 , Anonymous Anónimo disse...

E,as favas e a canja e o creme queimado com o ferro da lareira, "JACINTA MARIA"?
É preciso apreciar a pintura ,a música sentir os cheiros saber olhar as pequenas coisa para poder gostar da escrita do EÇA.Eu tenho as suas obras sempre ao pé de mim.Pena que muitos não façam o mesmo,evitariam certas publicações.
Vou pensar na tela sobre o teu poema.


um sol intenso da g.mimi

 

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