quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Um amigo


ERA UMA VEZ UM AMIGO
Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

            Conhecemo-nos pouco depois do Natal de 1987. A minha mãe morrera dias antes e eu estava desfeita. No intuito de me animarem, as minhas filhas trouxeram-mo de presente. Era uma coisa pequenina que não sabia sorrir, mas tinha um olhar tão limpo que encheu o meu coração de carinho. Ofereci-lhe logo a casa da minha ternura e inauguramos a palavra amigo. Melhor dizendo, tornei-me uma espécie de mãe daquela coisinha doce que cabia na palma da minha mão, que mal sabia andar ou pedir ajuda. Esse momento marcou a entrada do Willie na nossa vida. O Willie, que alguns dos meus leitores conheceram, era um cão, melhor dizendo, um senhor cão, apesar da sua condição de rafeiro, que desde que chegou se tornou o dono de todos nós pois todos passamos a viver em função dele. Vigiámos-lhe as tentativas de latidos e aplaudimos a primeira vez que ladrou. E a festa que fizemos quando ele conseguiu subir um degrau! Era uma bolinha de pelo preto, com o peito branco sarapintado e umas minetes brancas nas patas da frente. Filho e irmão de perdigueiros, herdou os genes de uma avó ou avô de raça diferente porque se distinguia da restante família pela cabeça bastante semelhante à de um lavrador. À medida que cresceu foi-se modificando. Recebemo-lo exactamente com um mês e viveu connosco 18 anos e 5 meses. Partiu como chegou: rodeado pelo nosso amor. Esse período de convivência é que me fez lembrar o poema do Alexandre O’Neill. Ele diz tudo o que eu gostaria de ser capaz de dizer. Ele era o contrário do inimigo. Afagava-nos com os olhos e, às vezes, com a língua. Qual sombra, seguia-nos por todo o lado, sobretudo ao meu marido e netos, que viu nascer e crescer, e que pelo prazer que lhes proporcionava foi motivo para eles desejarem um amigo semelhante. Com ele nunca estávamos sozinhos. Se alguém estava doente ele copiava a postura e só abandonava a cama quando o médico entrava para verificar que vinha em paz. Olhava-nos quando falávamos e entendia tudo quanto dizíamos, sobretudo quando lhe interessava, como quando na conversa surgia a palavra “rua” ou “passeio” ou “carro”. Saía disparado e era o primeiro a chegar à porta. Lembro-me que uma vez, em que queríamos sair sem ele, falámos francês entre nós os dois para que não compreendesse, mas não adiantou nada: saiu orgulhosamente á nossa frente. Grande gastrónomo, esperava sempre que acabássemos de comer para ver se lhe tocava algum petisco esquecido num prato ou guardado para o efeito. Viajante experiente, era um óptimo companheiro de jornada. Julgo que poucos acontecimentos familiares terá perdido. Talvez só aqueles interditos a caninos. Tinha ritos próprios que nos impôs e habituou-se a outros nossos. Essas rotinas juntamente com a sensação da humidade do seu focinho, do sedoso do pelo que nos oferecia para que o acariciássemos e do olhar fiel e frontal são agora apenas momentos de saudade. Viver com o Willie foi um privilégio, uma agradável tarefa, uma convivência feliz, mas sobretudo uma grande festa.

        

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